PESCA ARTESANAL NA ILHA DE MOÇAMBIQUE ENFRENTA DESAFIOS E ESCASSEZ DE RECURSOS

A pesca artesanal é a principal actividade de subsistência da população da Ilha de Moçambique, localizada na província de Nampula, que abriga 81.325 habitantes, segundo dados do Censo de 2017 do Instituto Nacional de Estatística. No entanto, os pescadores enfrentam inúmeros desafios, desde a escassez de peixe até a falta de equipamentos adequados, como redes, barcos e material de segurança marítima.

João Carlitos, de 21 anos, pai de um filho, afirma que a atividade não é mais tão rentável devido à diminuição dos recursos marinhos. “Com esta atividade conseguimos trabalhar para sustento familiar, mas não conseguimos obter dinheiro para comprar novos materiais ou ajudar a família”, disse. Ebrahim Masule, de 50 anos, lembra que nos anos 90 havia abundância de peixe, e atribui a escassez atual ao uso de redes inadequadas que capturam peixes pequenos, comprometendo a reprodução das espécies maiores.

Além dos homens, muitas mulheres participam ativamente da pesca. Anifa, de 45 anos, mãe de seis filhos, explica que pesca diariamente e, após o regresso, busca clientes para vender o produto. Contudo, a falta de material de proteção e a escassez de clientes aumentam os riscos e dificultam a sobrevivência econômica. Hoje, a extração de caracóis e outros peixes é limitada, sendo realizada apenas para garantir a alimentação familiar.

Jovens como Dinho, de 19 anos, abandonaram os estudos para trabalhar na pesca, enfrentando desafios como redes rasgadas e barcos danificados. Apesar dos esforços, muitas vezes retornam sem captura suficiente para sustentar a família.

O processo de comercialização também é um obstáculo. João relata que ao tentar vender o peixe fora da ilha, em distritos como Monapo e Namialo, muitas vezes não há compradores, e o produto acaba apodrecendo. Outros pescadores, como Omar, dedicam-se à extração de orícios, que proporciona algum rendimento para sustento familiar, mas não garante estabilidade.

Dados do Ministério do Mar, Águas Interiores e Pescas indicam crescimento expressivo da pesca artesanal em Nampula: 15.346 embarcações registradas, representando 70,7% de crescimento desde 2012. As embarcações são majoritariamente canoas de tronco escavado, seguidas por canoas do tipo Moma e lanchas. O levantamento registra 72.436 pescadores artesanais, sendo 64.036 permanentes e 8.400 eventuais, com maior concentração nos distritos de Angoche, Moçuril e Memba.

Andri Sadik Shandy, fiscal do Conselho Comunitário de Pesca, alerta para a necessidade de uso de redes apropriadas, como a de 1 polegada, permitindo pesca sustentável e conservação dos recursos. O conhecimento do processo de extração de mariscos, como os orícios, é parte do manejo tradicional e garante uma fonte de rendimento temporária para famílias que dependem diretamente do mar.

A pesca artesanal na Ilha de Moçambique, embora crucial para a subsistência, enfrenta sérios desafios estruturais, ambientais e de comercialização. A escassez de peixe, a limitação de equipamentos e os efeitos das mudanças climáticas exigem intervenções estratégicas para garantir sustentabilidade e segurança alimentar para as comunidades locais.


Por: Elídio Vasco