“DISSERAM-ME QUE NÃO CHEGARIA LONGE”: BELMIRO ATANÁSIO TRANSFORMA DESAFIOS EM ARTE E ESPERANÇA

Na cidade de Nampula, o pintor e escultor Belmiro Atanásio continua a desafiar obstáculos para afirmar o seu talento artístico. O artista conta que o seu percurso foi marcado por dificuldades, descrença e falta de apoio institucional, mas também por muita persistência e paixão pela arte.

Segundo Belmiro, tudo começou quando deixou Nacala Velha e se deslocou à cidade de Nampula para procurar orientação junto de um pintor já estabelecido. Em vez de incentivo, recebeu palavras de desmotivação. “Disseram-me que na pintura não se ganha nada, que eu tinha talento, mas que era melhor desistir porque não chegaria longe”.

Longe de o desencorajar, essas palavras serviram de motivação para continuar a perseguir o seu sonho.
Ao longo dos anos, Belmiro procurou apresentar os seus trabalhos a várias instituições. Conta que chegou a mostrar as suas obras ao Município de Nampula durante o mandato do antigo edil Paulo Vahanle. Foi posteriormente encaminhado para os serviços provinciais da cultura, onde recebeu elogios pelo seu talento, mas sem que surgissem oportunidades concretas de apoio.

O artista também tentou integrar-se numa associação de pintores, mas descobriu que a organização de que tinha ouvido falar não existia formalmente.

Belmiro afirma que começou a produzir obras com maior qualidade a partir de 2008. Determinado a aperfeiçoar as suas competências, frequentou formação artística na UNIRovuma, onde realizou um mural que ainda hoje pode ser visto em Napipine, na cidade de Nampula.

Entre as suas maiores conquistas destaca o primeiro lugar num concurso promovido pelo Instituto Camões, em Maputo, na categoria de banda desenhada.

O artista recorda igualmente uma das suas obras mais valorizadas, uma escultura que lhe rendeu 60 mil meticais. Apesar das conquistas, Belmiro considera que o sector cultural em Nampula enfrenta inúmeros desafios.

Segundo ele, muitos artistas locais continuam sem visibilidade, enquanto eventos culturais recorrem frequentemente a artistas vindos de outras províncias. “O talento existe em Nampula, mas falta apoio para que os artistas locais possam crescer e mostrar o seu trabalho”, afirma.

Belmiro vive essencialmente da venda de quadros e de encomendas ocasionais. Quando não surgem clientes, a actividade artística torna-se insuficiente para garantir um rendimento regular. Outro dos problemas apontados pelo artista é a escassez de materiais especializados na província.

Actualmente, para produzir as suas obras, Belmiro recorre a alternativas improvisadas. Utiliza tintas destinadas à construção civil, manda fabricar as estruturas de madeira junto de carpinteiros e compra tecido para confeccionar as suas próprias telas. “Tudo é feito com recursos próprios e muito esforço”.
Com mais de 100 quadros armazenados na sua residência, Belmiro sonha em ter um ateliê próprio onde possa trabalhar, expor e conservar as suas obras.

O artista gostaria também de ver mais espaços públicos dedicados à arte na cidade de Nampula, incluindo exposições ao ar livre e áreas permanentes para comercialização de quadros e artesanato. “Gostaria de ver as ruas da cidade com espaços para exposição de arte. Isso tornaria Nampula mais bonita e valorizaria os artistas locais”.

Apesar das dificuldades, Belmiro Atanásio mantém-se firme na sua caminhada artística. Sem apoios regulares, conta apenas com o incentivo da família e com a sua determinação.
Para ele, a arte não foi uma escolha, mas uma vocação. “A arte nasceu comigo. Foi ela que me escolheu.”

Com esperança no futuro, o artista acredita que o seu trabalho ainda poderá alcançar maior reconhecimento e contribuir para o desenvolvimento cultural da província de Nampula.


Por: Dilma Coelho