
Uma equipa de médicos da Sociedade Portuguesa de Cardiologia está a capacitar profissionais de saúde moçambicanos em técnicas de rastreio, diagnóstico e tratamento de doenças cardiovasculares, no âmbito da missão humanitária “Coração com Moçambique”, que decorre na província de Nampula.
A cardiologista Lígia Mendes, do Hospital Central de Nampula e membro da Sociedade Portuguesa de Cardiologia, explicou que a missão foi criada em 2022, durante a pandemia da Covid-19, por iniciativa do então presidente da Sociedade Portuguesa de Cardiologia, professor Victor Gil, com o objetivo de apoiar o fortalecimento dos serviços de cardiologia em Moçambique.
Segundo a especialista, o projeto começou em Maputo, com o apoio da professora Mocumbi, e posteriormente foi alargado a outras regiões do país.
“O nosso objetivo não é apenas realizar consultas, mas sobretudo transmitir conhecimento aos médicos moçambicanos para que possam diagnosticar e tratar as doenças cardiovasculares de forma autónoma”.
Durante a missão, os especialistas estão a formar médicos na realização de ecocardiografias, um exame que permite diagnosticar doenças como cardiopatias reumáticas, insuficiência cardíaca, hipertensão arterial e outras patologias cardiovasculares.
Lígia Mendes explicou que, em Portugal, muitas destas doenças são identificadas ainda na infância, permitindo a realização de cirurgias corretivas em casos de malformações congénitas.
No Hospital Central de Nampula, a equipa avaliou cerca de 40 pacientes, entre adultos e crianças, tendo identificado um número significativo de casos com alterações cardíacas.
“Encontrámos um elevado número de pacientes com problemas cardíacos, incluindo crianças e bebés. Cerca de dez apresentavam doenças cardíacas importantes que necessitam de acompanhamento especializado”.
Além da formação, a missão entregou ao Hospital Central de Nampula um ecógrafo e outros equipamentos médicos destinados ao diagnóstico das doenças cardiovasculares, reforçando a capacidade técnica da unidade sanitária.
A médica explicou ainda que a missão é desenvolvida por uma associação sem fins lucrativos e depende exclusivamente do apoio de doadores.
Durante duas semanas, os especialistas portugueses irão realizar consultas, sessões práticas e palestras dirigidas aos profissionais de saúde da província.
Por sua vez, um médico internista do Hospital Central de Nampula explicou que a campanha reúne cardiologistas de Moçambique, Portugal e Angola, com o propósito de identificar precocemente doenças cardiovasculares em crianças e adultos.
As atividades decorrem no Hospital Central de Nampula, no Hospital Geral de Marrere e incluem também ações de rastreio no Hospital da Ilha de Moçambique.
Segundo o especialista, as doenças cardiovasculares têm aumentado nos últimos anos na província, sobretudo entre adultos com hipertensão arterial e diabetes, fatores agravados pelo sedentarismo e pela alimentação rica em gorduras e colesterol.
Durante esta fase da campanha, os profissionais de saúde esperam rastrear cerca de 40 pacientes, embora a meta seja alargar o número de beneficiários. Até ao momento, cerca de 80% dos pacientes avaliados apresentaram algum tipo de lesão cardíaca, tendo sido encaminhados para acompanhamento médico.
No caso das crianças, os especialistas alertam que muitas doenças cardiovasculares resultam de malformações congénitas ou de complicações provocadas pela febre reumática, uma doença infecciosa que continua a afetar crianças em Moçambique e que pode causar lesões permanentes nas válvulas do coração.
Os médicos defendem que o diagnóstico precoce e a formação contínua dos profissionais de saúde são fundamentais para reduzir a mortalidade causada pelas doenças cardiovasculares e melhorar a qualidade dos cuidados prestados à população.
Por: Dilma Coelho



























