FILHOS DA PRESSA, ÓRFÃOS DO FUTURO

Vivemos tempos estranhos. Tempos em que muitos jovens querem chegar sem caminhar, vencer sem lutar e colher sem antes plantar.

A juventude sempre foi sinónimo de esperança, energia e transformação. Mas uma parte dela parece ter caído na armadilha do imediatismo. Quer tudo agora, tudo depressa e, de preferência, sem muito esforço. Se o resultado demora, desanima. Se o caminho é longo, desiste. Se o trabalho exige sacrifício, procura atalhos.

Entretanto, a vida nunca funcionou assim.

As grandes conquistas não nascem da pressa. Nascem da paciência, da disciplina e da persistência. Mas estes valores parecem cada vez mais raros numa geração que aprendeu a admirar resultados, mas não os processos que os tornam possíveis.

Hoje, muitos jovens passam mais tempo preocupados em parecer bem do que em ser alguém. O debate já não gira em torno dos estudos, da família, da fé, dos negócios ou dos projectos para o futuro. O assunto é outro: quem veste melhor, quem tem o telefone mais moderno, quem frequenta os melhores lugares e quem aparenta ter mais dinheiro.

O mais preocupante é que poucos questionam a origem de certas riquezas exibidas nas redes sociais e nas ruas. Importa mais mostrar do que construir. Importa mais impressionar do que crescer.

Ao mesmo tempo, os jovens que escolhem o caminho do esforço são frequentemente ridicularizados. O estudante dedicado é chamado de antiquado. O jovem que evita excessos é visto como alguém que não sabe aproveitar a vida. Quem investe no seu pequeno negócio ou na sua formação é muitas vezes tratado com indiferença.

Mas a verdade é simples: enquanto alguns procuram aplausos, outros estão a preparar o futuro.

Outro fenómeno que merece reflexão é a cultura da fofoca e da inveja. Muitos jovens perderam o hábito de discutir ideias e passaram a discutir pessoas. Fala-se mais da vida dos outros do que dos problemas que afectam as comunidades. Critica-se mais do que se propõe. Julga-se mais do que se ajuda.

A inveja tornou-se uma doença silenciosa. Em vez de inspirar-se no sucesso alheio, procura-se desacreditar quem está a crescer. Em vez de aprender com quem trabalha, tenta-se encontrar formas de o derrubar.

Com isso, todos perdem.

Uma juventude que investe o seu tempo a vigiar os outros dificilmente encontrará tempo para construir o seu próprio futuro.

É preciso recuperar valores que nunca deveriam ter sido abandonados: o respeito pelo trabalho, a honestidade, a humildade, a responsabilidade e a capacidade de esperar pelo tempo certo.

O dinheiro é importante, mas não é tudo. A aparência tem o seu lugar, mas não substitui o carácter. O sucesso verdadeiro não se mede pela roupa que se veste nem pelo telefone que se carrega no bolso. Mede-se pela dignidade com que se vive, pelo bem que se faz e pelo legado que se deixa.

A juventude moçambicana tem talento, inteligência e capacidade para transformar o país. Mas para isso precisa abandonar a cultura da pressa e abraçar a cultura da construção.

Porque quem vive apenas para o presente corre o risco de perder o futuro.

E uma geração que escolhe a pressa acima da preparação acaba por se tornar aquilo que o título deste artigo sugere: filhos da pressa, órfãos do futuro.


Por: Hélio Faustino